Artigo em periódico

Fonte: Revista Brasileira de Música, ___(edição)___, 2015

Uma teoria cognitiva do efeito estético musical

Marcos Nogueira

Resumo

Um formalismo idealista sedimentou a ideia de que o entendimento musical deve ser obtido na mera apreensão de uma disposição lógica de eventos musicais concatenados discursivamente. Assim os modelos formais resultantes de uma análise sintática musical proporcionaram a ilusão da coerência estilística entre as obras desse modo investigadas e cotejadas, assumindo papel central de objeto do entendimento musical. Todavia, se considerarmos como no realismo incorporado que os sentidos da música – assim como quaisquer outros sentidos constituídos em quaisquer campos de conhecimento – nascem de nosso engajamento com o mundo e têm origem nas e a partir de nossas ações sensório-motoras, o entendimento musical é, antes de tudo, entendimento do processo de abstração daqueles modelos formais, e não dos modelos propriamente. Estamos frente à tradicional controvérsia entre uma semântica formal, que em música apontaria diretamente para o campo da referenciação (ideias, expressão linguística, sentimentos, representação, simbolismo), recorrentemente abordado pela teoria musical da Modernidade, e uma semântica cognitiva, comprometida com o como construímos o sentido musical, ou seja, com o estudo dos processos por meio dos quais organizamos imaginativamente os eventos musicais no ato da escuta. Este artigo pretende discutir os processos que constituem uma semântica cognitiva dos efeitos estéticos tonais.

A modern intellectualism has consolidated the idea of structure in music experience, developing various strategies for the building and recognition of musical form. This formalism cemented the idea that musical understanding results from the mere apprehension of a logical arrangement of musical events concatenated discursively. Thus, the formal models resulting from a musical parsing gave the illusion of stylistic coherence among the works under scrutiny and comparison, assuming a central role as the object of musical understanding. However, if we consider that meaning in music – as any other meanings in all fields of knowledge – emerges from our engagement with the world, and originates in and out ofour sensory-motor act, as proposed by embodied realism. Therefore, musical understanding is firstly the understanding of the process of abstraction of those formal models, but not the models itself. We are facing the traditional dispute between formal semantics that in music would point directly to the referential field (expression, ideas, feelings, representation, symbolism), repeatedly approached by music theory of Modernity, and cognitive semantics, committed to build how musical meaning is constructed, i.e., to the study of processes by which we imaginatively organize musical events in the act of listening. This article discusses the processes that constitute the cognitive semantics of tonal aesthetic effects.

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