Artigo em periódico

Fonte: Revista Música, ___(edição)___, 2018

Música antes, palavra depois: sobre a realização do repertório da catequese com instrumentos musicais nas missões jesuítas brasileiras

Patrícia Michelini Aguilar

Resumo

O processo de catequização das crianças indígenas nas missões jesuítas brasileiras foi bastante peculiar, certamente diferenciado do que ocorria nos colégios europeus. Os padres inacianos precisaram aprender a língua local, adaptar os processos e materiais pedagógicos e proporcionar aos curumins uma vivência religiosa da qual eles nada conheciam. O uso da música foi essencial para estabelecer uma conexão mais próxima, atrativa aos índios, servindo ao mesmo tempo de isca para a catequese e de reforço ao aprendizado da doutrina. Embora essencialmente vocal, boa parte do repertório musical da catequese foi realizado em instrumentos, particularmente em flautas, amplamente empregadas pelos missionários, sobretudo nas primeiras décadas de sua atuação (1550-1610). Nesta comunicação, pretendemos demonstrar que o ensino de instrumentos musicais às crianças indígenas, particularmente de flautas, não visava apenas proporcionar uma variação instrumental ao repertório, mas também estabelecer um elemento uniformizador de resposta à doutrina. A barreira da língua e a compreensão real do conteúdo cristão eram algumas das maiores dificuldades enfrentadas pelos padres, mas a realização da música pelas flautas de certa forma minimizava tais obstáculos e proporcionava a sensação de êxito na atividade missionária. Se a palavra é necessária para concretizar e explicitar o pensamento, enquanto a música potencializa seu significado, nas missões jesuítas brasileiras os papéis parecem ter se invertido: a música serviu antes como recurso de assimilação, e a palavra, em língua desconhecida, constituidora de um texto complexo, foi por muitas vezes elemento acessório e não totalmente assimilado.

First, music; then, the word: about practicing catechesis repertoire with musical instruments in Brazilian Jesuit sites

The process of catechizing indigenous children in Brazilian Jesuit missions was quite peculiar, certainly different from what happened in European colleges. Ignatian priests needed to learn the local language, adapt pedagogical processes and materials, and provide children with a religious experience of which they knew nothing. The use of music was essential to establish a closer connection, attractive to the Indians, while serving as bait for catechesis and strengthening the learning of doctrine. Although essentially vocal, much of the musical repertoire of catechesis was performed on instruments, particularly on recorders, widely used by missionaries, especially in the first decades of their performance (1550-1610). In this communication, we intend to demonstrate that the teaching of musical instruments to indigenous children, particularly recorders, was not only intended to provide an instrumental variation to the repertoire but also to establish a unifying element of response to doctrine. The language barrier and the actual understanding of Christian content were some of the greatest difficulties faced by the priests, but the performance of the music by the recorders in a way minimized such obstacles and provided a sense of success in missionary activity. If the word is necessary to concretize and make explicit the thought, while music enhances its meaning, in the Brazilian Jesuit missions the roles seem to have been inverted: music served before as a resource of assimilation, and the word, in unknown language, constituting a complex text, was often accessory element and not fully assimilated.

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