Artigo em periódico

Fonte: OPUS, ___(edição)___, 2020

A comprovisação Hiatos: perspectivas contemporâneas sobre a interação entre improvisação e composição

Rafael Andrino Bacellar, Mario Lima Brasil

Resumo

Este artigo pretende investigar a relação entre composição e improvisação musical no contexto estético da música contemporânea, tendo por base a noção de improvisação não idiomática (improvisação livre). Aborda-se tal relação inicialmente a partir de um panorama histórico da ontologia por trás do conceito de obra musical segundo os escritos de Treitler (1993), delineando-se a predominância de um senso hierárquico entre partitura (escrita por um compositor) e interpretação (desenvolvida por um performer). Ao se apresentar uma conceituação sobre improvisação musical e sua relação histórica de oposição à composição, são expostas ideias de Bailey (1993), Falleiros (2006) e Canonne (2016). Trabalha-se com o conceito de comprovisação, conforme delimitado por autores como Bhagwati (2014) e Aliel (2017). A obra musical de Richard Barrett (2014) surge como exemplo de superação da hierarquia entre composição e improvisação por utilizar-se do conceito de improvisação semeada (seeded improvisation), um recurso criativo que engloba a improvisação livre por parte dos intérpretes no contexto de obras compostas com o uso de elementos notacionais. A partir desta ferramenta composicional, se desenvolveu a comprovisação Hiatos (BACELLAR, 2019). Concluiu-se que nesta obra foi amenizada a distância hierárquica entre compositor e performer através do emprego da improvisação e da escrita notacional, emergindo interações entre diferentes idiomas musicais. Destacam-se os aspectos interculturais como próprios da prática comprovisativa, os quais necessitam do desenvolvimento de ferramentas analíticas apropriadas.

A Hiatos comprovisation: contemporary perspectives on the interaction between improvisation and composition

This article intends to investigate the relationship between musical composition and improvisation within the aesthetic context of contemporary music based on the notion of non-idiomatic improvisation (free improvisation). The approach to understanding this relationship begins with a historical panorama of the ontology behind the concept of a musical work according to Treitler (1993). This panorama outlines the predominance of a sense of hierarchy between the musical score written by a composer and its interpretation by a performer. In order to present the concept of musical improvisation and the idea that, historically, it has been understood as the opposite of composition, this article brings together some ideas from Bailey (1993), Falleiros (2006), and Canonne (2016). The concept of comprovisation is also used, according to authors such as Bhagwati (2014) and Aliel (2017). Richard Barrett (2014) emerges as an example whose work overcomes the hierarchy between composition and improvisation by using the concept of seeded improvisation. This is a creative tool that includes the performers’ free improvisation on written music with notational elements. The comprovisation Hiatos (BACELLAR, 2019) has been developed with the use of this music composition tool. In this work, the hierarchical distance between composer and performer is shortened through the use of improvisation and notational elements, resulting in interactions between different musical idioms. Intercultural aspects inherent to any comprovisation are also highlighted, as is the need for appropriate analytical tools.

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