Artigo em periódico

Fonte: OPUS, ___(edição)___, 2023

Samba mudo: saberes sensíveis que a música não fala e a pesquisa não vê nem salvaguarda

Nina Graeff

Resumo

“Samba mudo” foi a expressão usada por sambadores do Recôncavo Baiano ao assistirem a vídeos de 1987 de João da Viola tocando cinco tons de machete. O samba foi chamado de mudo porque os vídeos foram gravados sem canto, de maneira a capturar com clareza aquelas cinco técnicas de execução da pequena viola. A clareza e os objetivos analíticos da pesquisa possibilitaram, décadas depois, reativar um saber em grande parte desaparecido por meio do projeto “Tons de Machete”, que registrou diversos saberes e perspectivas em torno da prática e realidade documentadas nos vídeos através de “encruzilhadas sensíveis”, método aqui apresentado, entre agentes de diferentes lugares e contextos do Brasil e Portugal. Entretanto, ao enfatizar determinados aspectos e discursos de uma prática cultural mais ampla, certas escolhas de registro e de pesquisa podem emudecer saberes, conforme as premissas e percepção do pesquisador. Este artigo é o primeiro de uma série que, ao apresentar resultados do projeto, busca, a partir de pesquisa etnográfica e das vozes de mestres sambadores, amplificar várias dimensões constituintes do fazer musical que escapam a uma percepção eurocêntrica formatada pela Normatividade Musical Ocidental e predominante na pesquisa, ensino e salvaguarda musicais. Além de apresentar o projeto, neste artigo são questionadas narrativas em torno da viola machete como principal objeto de salvaguarda na patrimonialização do samba de roda e discutidos entendimentos amplos dos sambadores acerca do samba e de seus instrumentos, incluindo aspectos cosmológicos condizentes com epistemologias africanas.

“Samba mudo”: sensitive knowledges that music does not say, and research does not see nor safeguard

Samba mudo was the expression used by sambadores [samba players] from the Recôncavo Baiano region of Bahia, Brazil, while they watched videos from 1987 of João da Viola playing five different playing techniques at the machete guitar, the so-called tons de machete. The samba was called mudo [mute] because the videos were recorded without the traditional singing voices, aiming to capture the clarity of those five performance techniques on the little “viola” guitar. The clarity and analytical goals of the research enabled the revival of knowledge that had largely disappeared through the Tons de Machete project, which documented various types of know-how and perspectives surrounding the musical practice and reality depicted in the videos. This was possible through “Sensitive Crossroads”, a method presented in this article that involves agents from different locations and contexts in Brazil and Portugal. However, by emphasizing certain aspects and discourses of a broader cultural practice, research and recording choices may contradict and make the essence of a musical practice invisible (“mute”). This article is the first of a series that presents project results and seeks to amplify the various constituent dimensions of musical practice that elude a Eurocentric perception shaped by Western Musical Normativity prevalent in musical research, education, and heritage preservation. In addition to contextualizing the project, this article questions narratives that turned the viola machete into the main object of protection in the safeguarding plan and implementation of samba de roda as UNESCO Heritage of Humanity, as well as discusses broad understandings of samba players regarding samba practice and instruments, including cosmological aspects that correspond to African epistemologies.

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