Dissertação de Mestrado

Fonte: Programa de Pós-Graduação em Música (UNESP), ___(edição)___, 2004

Quando a paisagem torna-se obra: uma abordagem ecológica das composições do tipo paisagem sonora

Rael Bertarelli Gimenes Toffolo

Resumo

As composições do Tipo Paisagem sonora, que se utilizam praticamente de sons ambientais como material principal para a composição, têm gerado amplas discussões no âmbito da música eletroacústica. Tais discussões são presentes tanto em vertentes mais estruturalistas, que não vêm qualquer possibilidade de organização a priori desse tipo de material sonoro, quanto naquelas que se aproximam mais da música concreta, que não concordam com o alto nível de referencialidade sonora empregado nesse tipo de obra por entrar em desacordo com as proposições da escuta reduzida de Pierre Schaeffer. Os apontamentos realizados por Traux (1996) confirmam esse panorama e apontam os possíveis motivos para tais críticas. O principal deles centra-se no fato de que inexiste uma metodologia de análise para lidar com sons ambientais. Segundo Truax, esse inexistência é decorrente das bases matemáticas em que se apóiam as ferramentas analíticas da música eletroacústica. Logicamente, por não haver uma metodologia de análise, a musicologia ocidental não vê a possibilidade de construção de uma sintaxe baseada em sons ambientais, já que não há a possibilidade de mensuração de tais sons. Para sugerir algumas possíveis respostas para os problemas apontados por Truax, propusemos a construção de uma metodologia de análise para sons ambientais que não esteja baseada em parâmetros físico-matemáticos. Para que tal tarefa fosse possível, fizemos inicialmente uma incursão sobre os aspectos históricos que relatam o surgimento e desenvolvimento desse tipo de composição, nos apoiando em Iges (1999) e Schafer (2001). Posteriormente, descrevemos os conceitos chaves da Psicologia Ecológica tal qual proposta por J. J. Gibson (1966 e 1979), no intuito de apresentar uma teoria que de conta do aspecto da referencialidade, para relacionarmos tal teoria com a classificação tipo-morfologia de Pierre Schaeffer (1966) e, a partir das congruências entre esses dois autores, sugerir uma metodologia de análise para as composições do tipo Paisagem Sonora. Finalmente apresentamos o teste dessa metodologia realizando a análise de uma obra representativa do repertório de Paisagens Sonoras. A partir de tal análise, foi possível apresentar algumas possibilidades de organização de sons ambientais em composições do tipo Paisagem Sonora através da comparação dos resultados da análise com as proposições de Wishart (1986) e Emmerson (1986).

The Soundscapes compositions, which use environmental sounds as main material, have generated wide discussions in the scope of electroacustical music. Such quarrels are found in structuralist sources, which do not agree with any possibility of organization a priori to this type of sonorous material, as in those which approach more to concret music, that do not agree with the high level of sounds external references applied in this type of work, because it disagrees with the proposals of the Reduced Listening of Pierre Schaeffer. The TRUAX´s (1996) appointments confirm this scenery and indicates the possible reason to such critiques. The main one of them is centered in the fact of the non existence of an analysis methodology to deal with environmental sounds. According to Truax, this lack is decurrent from the mathematical bases in which the analytical tools of electroacustic music support themselves. Obviously, by not having an analytical methodology, the occidental musicology does not see the possibilitiy of construction of a syntax based on environmental sounds, since it does not have the possibility measuring sounds. In order to suggest some possible answers to the problems indicated by Truax we considered the construction of an analytical methodology for environmental sounds that is not based on the physical-mathematical parameters. Thus, to make this task possible we made initially an incursion on the historical aspects that relate the appearance and development of this kind of composition, supported by Iges (1999) and Schafer (2001). Afterwards, we described the key concepts of Ecological Psychology as proposed by J. J. Gibson (1966 an 1979), with the intention of presenting a resultant theory that encloses the aspects of the sound´s reference and to relate this theory with the type-morphology classification of Pierre Schaeffer (1966) and from the congruences between these two authors to suggest an analytical methodology for the Soundscapes compositions. Finally, is presented the test of this methodology accomplishing the analysis of a representative musical work of the repertoire of Soundscapes Compositions. From such analysis, it was possible to demonstrate some possibilities of organization of environmental sounds in Soundscapes Compositions through the comparision of the results of the analysis with the proposals of Wishart (1986) and Emmerson (1986).

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