Tese de Doutorado

Fonte: Programa de Pós-Graduação em Música (UNIRIO), ___(edição)___, 2007

Polirritmos nos Estudos para piano de György Ligeti (primeiro caderno)

Sara Cohen

Resumo

Esta investigação focaliza aspectos rítmicos dos Estudos para piano de György Ligeti (1923-2006) e está dividida em duas partes. A primeira inicia com um breve bosquejo da trajetória musical do compositor, em particular de sua produção para o piano solo. Seguem-se duas reflexões: uma, sobre o intrigante comentário de Ligeti no qual relaciona o virtuosismo dos estudos com a inadequação de sua técnica pianística, e outra, que aponta elementos para entender por que Ligeti teria considerado a obra de Nancarrow (1912-1997) tão distinta na produção musical do século XX, a ponto de reivindicá-la como fonte de inspiração e estímulo para os seus estudos para piano. O objetivo da primeira parte é evidenciar o projeto de Ligeti: produzir música com complexidade polirrítmica semelhante à dos estudos para piano mecânico de Nancarrow para ser realizada por um único pianista em um piano convencional. A segunda parte do trabalho reúne investigações sobre ritmo. Discute-se o conceito de polirritmia e suas imbricações com os conceitos de polimetria e politemporalidade, bem como a estruturação do tempo e da polirritmia na música africana, na interpretação de Simha Arom. São estudadas duas estratégias rítmicas encontradas na base da polirritmia, a hemiólia e o aksak. A hemiólia é investigada em diferentes contextos histórico-musicais, incluindo o conceito de hemiólia estendida criado por Ligeti. São analisados os estudos Cordes à Vide, Arc-en-ciel e Automne à Varsovie. A comparação entre os quadros conceituais desenvolvidos por Bartók e Brăiloiu norteia a investigação sobre o aksak e não apenas explicita os limites da concepção tradicional dos compassos, como também amplia a compreensão de alguns dos processos rítmicos utilizados por Ligeti em Fanfarres e Désordre. Concluímos que a polirritmia confere uma organicidade aos Études trazendo para o piano um gesto de renovação de suas potencialidades.

This study focus on the rhythmic aspects of the piano Études of György Ligeti (1923- 2006) and is divided into two parts. The first one begins with a brief overview of the musical path of the composer, in particular of his production for solo piano. Two reflections follow: one, about Ligeti’s intriguing commentary which relates the virtuosity of the studies with the inadequacy of his piano technique, and another, which points elements for the understanding of why Ligeti would have considered Nancarrow’s (1912-1997) work so distinct in the twentieth century musical production, insomuch as to claim it as a source of inspiration and stimulus for his studies for piano. The objective of the first part is to turn Ligetis’s project clear: to make music with a polyrhythmic complexity similar to the Nancarrow’s Studies for player piano to be performed by a live pianist in a conventional piano. The second part of the work puts together investigations on rhythm. The concept of polyrhythm and the implications thereof with the concepts of polymetrics and polytempo are discussed, as well as the structure of tempo and polyrhythm in African music, in the interpretation of Simha Arom. Two rhythmic strategies found in the base of polyrhythm, the hemiola and aksak, are studied. The hemiola is investigated in different historical-musical contexts, including the concept of extended hemiola created by Ligeti. The studies Cordes à Vide, Arc-en-ciel, and Automne à Varsovie are analyzed. The comparison between the conceptual frames developed by Bartók and Brǎiloiu direct the investigation about aksak and shed a light not only on the traditional conception of the meter, but also on the rhythmic processes used by Ligeti in Fanfarres and Désordre. We conclude that polyrhythm bestow an organic characteristic to the piano studies of György Ligeti, providing a gesture of renewal for the piano potentialities.

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