Artigo em periódico

Fonte: Orfeu, ___(edição)___, 2019

Pianistas ou Pianeiros: duas interpretações do tango Fon Fon de Ernesto Nazareth

Paula Zimbres

Resumo

Ernesto Nazareth ocupa posição exemplar nos debates em torno da dicotomia erudito-popular que são cruciais para a compreensão da cultura brasileira ao longo dos séculos XIX-XX. Tendo vivido, segundo Elizabeth Travassos, “no limiar entre os dois mundos”, sua obra, que hoje é parte do repertório canônico tanto de músicos eruditos quanto populares, exemplifica a possibilidade da sobreposição de valores e procedimentos pertinentes a ambas as esferas. Este trabalho analisa duas gravações de sua peça Fon-Fon! (uma de Eudóxia de Barros, datada de 1963, e outra de André Mehmari, em 2013) procurando detectar os recursos interpretativos por meio dos quais cada uma das gravações enfatiza os valores centrais de sua área de atuação – a fidelidade à partitura e à intenção do autor, pela pianista de formação erudita; e a liberdade de expressão pessoal característica do pianeiro vinculado à música popular. Concluímos, entretanto, que, ao se pautar por um determinado conjunto de valores, cada um acaba por reforçar e expressar também valores pertinentes ao outro campo.

Pianistas or pianeiros?: Two renditions of the tango Fon-fon!, by Ernesto Nazareth

Ernesto Nazareth holds an exemplary position in the debates surrounding the classical-popular dichotomy that are crucial for understanding Brazilian culture throughout the 20th century. Having lived, according to Elizabeth Travassos, “at the threshold between both worlds”, his work, which is now part of the canonic repertoire of both classical and popular musicians, exemplifies clearly the possibility of superposing values and procedures associated with each of these spheres. This paper analyses two recordings of his piece Fon-fon! (one by Eudóxia de Barros, dated 1963, and the other by André Mehmari, in 2014), with the aim of identifying the interpretive resources through which each artist emphasizes the central values pertaining to his or her field – fidelity to the score and to the composer’s intentions, in the case of the classically-trained pianista; and freedom of personal expression in the case of the pianeiro associated with popular music. Our conclusion, however, is that, by following a certain set of values, each interpreter ends up reinforcing and expressing also values pertaining to the other field.

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