Tese de Doutorado

Fonte: Programa de Pós-Graduação em Música (UNIRIO), ___(edição)___, 2016

O dito e o não dito: a palavra cantada no gesto instrumental de Jacob do Bandolim

Marcilio Marques Lopes

Resumo

Investigação do conteúdo expressivo no estilo maduro de Jacob do Bandolim (1918-1969), particularmente revelado em seu último álbum Vibrações (1967), que se estabelece como modelo de sonoridade e expressão do instrumento. Para além de recursos puramente instrumentais, argumentamos consolidar-se neste último um processo de aproximação do gesto expressivo do bandolinista com a música cantada que tem, como ponto de partida, o LP Época de Ouro (1959). O título e o conteúdo deste álbum refletem uma linha de pensamento comum entre vários agentes culturais naquele instante, amigos próximos do bandolinista, todos preocupados com os caminhos da música popular de então, valorando a produção de um passado idealizado imediatamente anterior. É no seio desta tendência que surge o LP de 1959, e nele Jacob do Bandolim começa a exercitar o tipo de cuidado com detalhes expressivos que encontrará sua forma mais refinada no LP Vibrações: o bandolinista procura emular a expressão vocal das versões originais das canções, consolidando a aproximação de seu estilo com a palavra cantada. Neste estilo tardio, Jacob do bandolim traz consigo a marca da relação estreita entre língua e expressão, característica do repertório daquela “época de ouro”, mas nele o verso desaparece por completo deixando somente seus traços na expressividade pessoal: um instrumentista que fala/canta o texto musical com todas as nuances dos grandes intérpretes – um fraseado que remete a Orlando Silva, Francisco Alves, Elizeth Cardoso, Ciro Monteiro, para nomear alguns. A metodologia de estudo foi a audição e análise de peças do repertório do LP Época de Ouro, identificando os gestos melódicos (articulações, acentos, variações, etc.) e relacionando-os com os versos das gravações originais daquelas canções, com o objetivo de determinar como a palavra pode ter atuado como plano de ação do bandolinista. Além disso, há um estudo comparativo do repertório instrumental gravado pelo bandolinista antes e após aquele álbum, visando localizar gestos instrumentais que podem ter se originado da reflexão que se operou naquele projeto.

Investigation of expressive content in the mature style of Jacob do Bandolim (1918-1969), revealed particularly in his last album Vibrações (1967), which sets a model for the sound and expression on the instrument. Beyond purely instrumental resources, we argued that on this last album a process of approaching the mandolinist expressive gesture towards the music sung is consolidated, with the LP Época de Ouro (1959) as a starting point. The title and content of this album reflects a common line of thought between several cultural agents at that moment, close friends of the mandolinist, all concerned with the ways of popular was drifting, valuing the production of an idealized past immediately prior. It is within this emerging trend that arises the LP “Época de Ouro, and with it Jacob begins to exercise the kind of care with expressive details that will reveal its most refined form in his last album: the mandolin strives to emulate the vocal gestures of the original versions of the songs, consolidating the approach of his style with the sung word. In his late style, Jacob do Bandolim shows the close relationship between language and expression, characteristic of the repertoire of that "golden age", but on it the verse disappears completely, leaving only traits on the personal expression: an instrumentalist who speaks/sings the musical text with all the nuances of the great interpreters - one phrasing which reminds of Orlando Silva, Francisco Alves, Elizeth Cardoso, Ciro Monteiro, to name a few. The methodology was the hearing and analysis of the Época de Ouro repertoire, identifying the melodic gestures (articulations, accents, variations, etc.) and relating them to the verses of the original recordings of those songs, trying to establish how the word may have acted as action plan for the mandolinist. Besides that, the research of instrumental repertoire recorded by the mandolinist before and after that album, aiming to find the instrumental gestures that may have been originated from the reflection that worked on that project.

Etude du contenu expressif du style mature de Jacob do Bandolim (1918-1969), particulièrement révélé dans son dernier album Vibrations (1967), et qui s’établit come un modèle de sonorité et d'expression pour l’instrument. Outre les ressources purement instrumentales, nous avons soutenu que, dans ce dernier album, se consolide un processus de rapprochement entre le geste expressif du mandoliniste et la musique chantée. Ce processus commence avec l’album Época de Ouro (1959). Le titre et le contenu de cet album reflètent une ligne commune de pensée entre les différents agents culturels du moment, des amis proches de Jacob do Bandolim, tous concernés par les tournures de la musique populaire d’alors, et qui valorisaient la production d'un passé récent et idéalisé. C’est au sein de cette nouvelle tendance que surgit le disque de 1959 “Época de Ouro”, Jacob commence a y exercer le type d’attention, avec des détails expressifs, qui trouvera sa forme la plus raffinée dans son dernier album: le mandoliniste cherche à imiter les expressions des versions originales des chansons, consolidant ainsi le rapprochement de son style avec le texte chanté. Dans son style tardif, Jacob incorpore la marque de l’étroite relation entre la langue et l'expression, caractéristique du répertoire de cette “époque dorée”, mais le vers disparaît entièrement, laissant seulement ses traits dans l'expressivité personnelle: un instrumentiste qui parle/chante le texte musical avec toutes les nuances des grands interprètes - un phrasé qui se réfère à Orlando Silva, Francisco Alves, Elizeth Cardoso, Ciro Monteiro, pour n’en citer que quelques-uns. La méthodologie de l'étude a été l’audition et l'analyse du répertoire du disque Época de Ouro, en identifiant les gestes mélodiques (articulations, accents, variations, etc.) et en les reliant aux versets des enregistrements originaux de ces chansons, tout en essayant d'établir comment le mot peut avoir agi comme plan d'action pour le mandoliniste. Et aussi la recherche du répertoire instrumental enregistré par le mandoliniste, avant et après cet album, afin de repérer les gestes instrumentaux qui peuvent provenir de la réflexion qui s’est opérée sur ce projet.

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