Comunicação oral
Fonte: Conferência Internacional de Educação Musical de Sobral, ___(edição)___, 2013
Jovens cantadores: a (re)invenção da cantoria na(s) cidades-mundo do nordeste brasileiro
Francisco José Gomes Damasceno
Palavras-chave
Resumo
O século XX foi marcado por um interessante processo no que toca a formação das cidades brasileiras e também de uma região particularmente rica e importante neste país: o Nordeste. Marcado por uma série de concepções sobre sua pobreza e atraso em relação a regiões desenvolvidas, como a região sudeste, a referência de tal análise se centrava (e se centra) no processo de urbanização marcado pelo desenvolvimento industrial e por um acentuado crescimento populacional resultado de intenso processo migratório das regiões mais pobres (como o Nordeste) para estes “polos” de desenvolvimento. Neste sentido, políticas públicas de diversas ordens foram implementadas, ao passo que tais regiões eram relegadas ao “esquecimento” ou a simples implementação de recursos monopolizados por suas elites em benefício próprio e na manutenção de uma estrutura latifundiária e exploradora. É neste contexto que lugarejos, pequenas vilas, pequenas cidades veem seus filhos se deslocando em busca de melhores condições de vida e de trabalho, primeiro nas grandes cidades do sudeste e depois nas médias e grandes cidades do próprio nordeste, como Recife, Maceió, Aracaju e Fortaleza. Com eles rumo a estas cidades se deslocava também todo o universo imaginário destes “povos do sertão”, seus modos de fazer, suas sensibilidades, sua cultura.
Uma das características mais marcantes desta cultura se corporifica no cantador e em sua arte a cantoria. Cantadores e cantoria são tão antigos quanto o cultura do nordeste brasileiro e tem sido colocados como uma das maiores senão a maior e mais representativa expressão da cultura nordestina. Com a migração das populações de lugarejos e pequenas vilas para as cidades estas culturas (e a cantoria e os cantadores) se estabeleceram nas cidades iniciando um processo de apropriação e recriação destes espaços em seus mais significativos âmbitos, sobretudo em apropriações, ressignificações e traduções que nos colocam no campo do entendimento da produção desta arte de forma singular e própria, sobretudo a partir da segunda metade do século XX. Na atualidade, esta arte e seus sujeitos têm produzido interferências na(s) cidade(s), a partir de uma série de artifícios que tenho chamado de artimanhas, de forma a se inserirem nos espaços urbanos se apropriando de mecanismos que vão desde as expressões da cultura de massas (como programas de rádio em várias cidades, mídias diversas tais como gravações em vinil, em CD’s, participação em meios virtuais como facebook, apresentações com o uso de sistemas de amplificação, etc.) e que os colocam como legítimos representantes desta cultura “tradicional” representante dos povos dos sertões e ao mesmo tempo como representantes das culturas urbanas, dado que estes jovens cantadores nascidos nas cidades estão nas fronteiras entre o tradicional e o moderno, pelos usos dos recursos típicos das culturas urbanas, como das regras da estrutura poética e musical caras á sua tradição. É esta a forma de reinvenção da cantoria com usos “modernos” que os jovens cantadores realizam e como se inserem nas cidades, ainda como legítimos representantes do nordeste “rural e atrasado” e cada vez mais estabelecendo trajetórias complexas e infinitas de um trânsito, ou melhor das cidades nordestinas como territórios de trânsitos, não paralisadas no tempo e espaço, mas como “entre-lugares”.
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