Comunicação oral
Fonte: Simpósio Brasileiro de Pós-Graduandos em Música, ___(edição)___, 2014
Do canto religioso popular à música autóctone: memórias, esquecimentos e o desenvolvimento de uma identidade musical local no catolicismo pós-conciliar
Fernando Lacerda Simões Duarte
Palavras-chave
Resumo
Com o advento do Concílio Vaticano II (1962-1965), a prática musical litúrgica católica passou por profundas modificações em aspectos relacionados à composição musical, interpretação e às relações estabelecidas entre as pessoas e o repertório, sobretudo no tocante à participação ativa nas missas. Se por um lado se admite que o concílio oficializou um movimento em curso, não se pode negar certa ruptura, principalmente na América Latina. O presente trabalho teve como problemática esta ruptura, abordada pelo quadro teórico da memória, esquecimento e identidade. A musicologia brasileira tem considerado o repertório pós-conciliar basicamente do ponto de vista europeu e em comparação com aquele produzido anteriormente. Neste trabalho, buscou-se compreendê-lo em suas bases ideológicas, relacionando-o à canção de protesto latino-americana. Foi empreendida pesquisa bibliográfica e, análise do documento Pastoral da música litúrgica no Brasil (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e de algumas músicas litúrgicas alinhadas às suas propostas. Esta análise considerou os referenciais de memória e identidade de Joël Candau, bem como uma abordagem sistêmica apoiada em Luhmann e Buckley. Os resultados apontam para o florescimento de um novo repertório, a música autóctone, não mais a partir de modelos institucionais impostos por meio de normas, mas do incentivo à criação e exploração de elementos musicais relacionados à memória musical coletiva brasileira. Este repertório não foi simples reprodução da música folclórica ou daquela associada ao catolicismo popular, mas recorreu a tais memórias. Suas principais inovações dizem respeito à exploração de ritmos, timbres e modos, além do conteúdo politicamente engajado das letras. Concluiu-se que o processo de criação de uma identidade musical-religiosa brasileira pós-conciliar envolveu a coexistência de rupturas e continuidades, memórias e esquecimentos.
From Popular Religious Songs to Autochthonous Music: Memories, Oblivions and the Development of a Local Musical Identity in the Post-Counciliar Catholicism
With the advent of the Second Vatican Council (1962-1965), the Catholic liturgical musical practice underwent profound changes in aspects related to musical composition, interpretation and relations between people and the repertoire, especially in terms of effective participation in church services. If on one hand it is admitted that the council formalized a movement ongoing, we can’t deny certain rupture, especially in Latin America. This paper had as issue this rupture, approached by the framework of memory, oblivion and identity. Brazilian musicology has considered the post-counciliar repertoire primarily from European point of view and in comparison with that previously produced. In this paper, we sought to understand it in their ideological bases, related to the Latin American protest song. Research in Literature, analyses of the document Pastoral da música litúrgica no Brasil [Pastoral care of liturgical music in Brazil] (National Conference of Bishops of Brazil) and some liturgical music aligned to their proposals were undertaken. The analysis considered as benchmarks memory and identity by Joël Candau, as well a systematic approach by Luhmann and Buckley. The results point to the flourishing of a new repertoire, autochthonous music, not from institutional models imposed by rules, but from the encouraging of the creation and exploitation of musical elements related to the Brazilian collective musical memory. This repertoire was not a simple reproduction of folk music or that as sociated with popular Catholicism, but resorted to such memories. Its main innovations concern the exploitation of rhythms, timbres and modes, plus the politically engaged lyrics content. We concluded that the process of creating a Brazilian musical-religious identity after the Council involved the coexistence of ruptures and continuities, memories and oblivions.
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