Artigo em periódico

Fonte: Música e Cultura, ___(edição)___, 2017

Construindo territórios, rimando violências: das narrativas musicais num contexto urbano do sul do Brasil

Luana Zambiazzi dos Santos

Resumo

Prefácios MCs e Pacificadores RS, grupos de rap formados por moradores e ex-moradores da Vila Cohab que frequentemente compartilham estúdios e palcos, formando o grupo Mesclã, recorrentemente mencionam espaços e criam sonoridades em suas rimas como demarcadores de pertencimentos e identidades. Assim, se narram como “os guri da Feitoria”, acentuando o bairro do qual fazem parte, “extremo leste, parte do planeta que a burguesia esquece”, na cidade de São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre(RS). Suas demarcações vão, entretanto, além da dimensão da experiência vivida nesse lugar, ampliando-se em narrativas que incorporam diversas figurações sobre “formas de viver” nas camadas populares brasileiras. Ao mesmo tempo, bases sampleadas e letras de suas rimas reúnem flashes de cenas, posicionamentos críticos e alusões de “como dar um jeito” num contexto de adversidades. Instigada por tais práticas musicais, tento neste artigo refletir sobre o lugar da violência na construção de territórios por meio de narrativas musicais nesse contexto urbano do sul do Brasil, partindo de um exercício interpretativo de alguns raps do Mesclã. Aceitando o desafio de dar continuidade às propostas de etnomusicologias mais contemporâneas, tento evitar o paradigma da causalidade e tramar conexões entre música e violência como mais do que uma (con)sequência previsível em espaços populares estigmatizados nos jogos assimétricos de poder. A partir de experiências etnográficas entre moradores e moradoras da Vila Cohab, narrativas se constituem na multiplicidade e intensidade sonora, enquanto omissões, constrangimentos e revolta contra invisibilidades se manifestam não apenas como respostas, mas como formas de vivenciar o que poderia ser considerado, enquanto ferramenta conceitual, violência. O exercício interpretativo aqui proposto pode ser entendido como camada “intermediária” e fundamental da construção etnográfica, moldada de acordo com meus percursos etnográficos e reflexivos. Nesse exercício, tentarei mostrar como as rimas do Mesclã podem ser entendidas como refrãos frente às dinâmicas sociais do contexto urbano e popular, seja como forma de lidar com as memórias da violência ou para se preparar para novos territórios. Por fim, tento sinalizar linhas de força nas construções narrativas musicais desses moradores e moradoras – em que entendimentos de violência num sentido menos explícito tornam-se demandas etnográficas.

Building territories, rhyming violence: about musical narratives in an urban context of southern Brazil

Prefácios MCs and Pacificadores RS, crews formed by residents and ex-residents of Vila Cohab who usually share stages and studios, then called Mesclã, often mention spaces and create sonorities through their rhymes as identities and belonging marks. On this way, the group narrate themselves as the “guri da Feitoria” (guys from Feitoria), emphasizing the neighborhood from where come from, in a town called São Leopoldo, metropolitan region of the capital Porto Alegre (RS). However, the group demarcations go beyond physical experiences, incorporating several ways of life in Brazilian popular settings. At the same time, sampled instrumental bases and lyrics in their rhymes comprehend flashes of scenes, critical positions and suggestions on how to overcome difficult situations. Inspired for such musical practices, in this article I try to reflect upon the place of violence in the construction of territories through musical narratives from that urban context in Southern Brazil, since an interpretative exercise which takes some raps as object of analysis. Taking as challenge the continuity of contemporary ethnomusicological trends, I try to avoid the causality paradigm and connect music and violence as more than a predictable (con)sequence in urban popular spaces, stigmatized through power asymmetries. From ethnographic experiences among Vila Cohab’s residents, narratives are constructed in sonic multiplicity and intensity, whereas invisibilities, constraints and revolt feelings are manifested not only as responses but as ways of experience what could be consider, as a conceptual skill, violence. Through interpreting some rhymes of my interlocutors as an intermediate layer of the ethnographic work, I will try to show how their songs become refrains faced to those urban and popular social dynamics – be it a way of handle with memories of violence or to be prepared to new territories. Finally, I try to signalize how understandings of violence in a less explicit sense are necessary in the task of drawing force lines upon musical narrative constructions created by my interlocutors.

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