Tese de Doutorado
Fonte: Programa de Pós-Graduação em Música (UFMG), ___(edição)___, 2021
Colonialidade e Tradição: desvelando a matriz de poder adjacente às práticas musicais/violinísticas de concerto
Luiza Gaspar Anastácio
Palavras-chave
Resumo
A prática do violino no âmbito da música de concerto é fortemente vinculada a certos pressupostos assentidos e incorporados tanto nos meios profissionais quanto de formação no instrumento. Está associada a uma tradição musical com características estabelecidas, que expressa normas e princípios, parte da “cultura legítima” segundo o pensamento moderno/eurocêntrico. Observa-se em sua essência uma compreensão particular sobre a música, orientada por uma construção ideológica que reflete as lógicas civilizatórias coloniais e, de forma naturalizada, mantém hierarquias e valores que reforçam as relações assimétricas entre Norte e Sul.
Esta pesquisa aborda a tradição musical de concerto com ênfase na tradição violinística, considerando sua inserção no contexto latino-americano. Buscando contribuir com os estudos em Performance Musical observamos aspectos fundamentais da área, como o repertório e o cânone – que representam, para além de um conjunto determinado de obras musicais, o cerne do que é concebido como conhecimento válido ou legítimo neste âmbito artístico –, bem como questões vinculadas à institucionalização das práticas musicais em meios hegemônicos, como universidades e orquestras.
Mediante estudo bibliográfico e análise de uma série de documentos oficiais (que inclui editais de concursos orquestrais, editais de processos seletivos para universidades, grades curriculares de cursos de graduação em música, temporadas e programas de concerto de orquestras, programas de recitais realizados em cursos de graduação em violino, entre outras fontes) explicitamos a homogeneização das práticas musicais-violinísticas de concerto na América Latina e, adotando como principal base conceitual/teórica o pensamento decolonial, buscamos desvelar a matriz de poder intrínseca a esta tradição musical, além de apontar algumas alternativas em direção a um possível – e gradual – desprendimento.
Realizamos, ademais, um estudo prático-interpretativo direcionado a obras “periféricas” no âmbito da música de concerto, sugerindo a possibilidade de ampliação do repertório violinístico para além do cânone eurocentrado.
Violin practices in the context of classical music are strongly related to certain assumptions agreed upon and incorporated both in professional circles and in the music educational field. These practices are associated with a musical tradition with established characteristics that communicate norms and principles that constitute the “legitimate culture” according to modern Eurocentric thinking. In essence, there is a very specific understanding of music, guided by an ideological construction that reflects the colonial civilizational logics and, in a natural way, maintains hierarchies and values that reinforce the asymmetric relations between North and South.
This research approaches the classical music tradition with focus in the violin tradition, considering its insertion in the Latin American context. Seeking to contribute with Musical Performance studies, we observe fundamental aspects of the area, such as the repertoire and the canon – which represent not only a specific set of musical works, but indeed the core of what is conceived as valid or legitimate knowledge in this artistic domain –, as well as issues related to the institutionalization of musical practices in hegemonic environments, such as universities and orchestras.
Through bibliographical study and analysis of official documents (including the contents of orchestral and university admission tests, curricula and concert programs of undergraduate music courses, concert seasons and concert programs of orchestras, among others) we elucidate the homogenization of musical-violinistic concert practices in Latin America and, adopting decolonial thinking as the main conceptual/theoretical basis, we aim to unveil the matrix of power intrinsic to this musical tradition, in addition to proposing some alternatives towards a possible – and gradual – detachment.
In addition, we developed a practical-interpretative study of “peripheral” works in classical music field, suggesting the possibility of expanding the violin repertoire beyond the Eurocentric canon.
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