Artigo em periódico

Fonte: OPUS, ___(edição)___, 2018

Cave carmen: o uso da habanera na abertura Gabriela, Cravo e Canela, de Fernando Lopes-Graça

Guilhermina Lopes

Resumo

Apresento, neste artigo, uma análise da abertura sinfônica Gabriela, Cravo e Canela (1963), do compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994), inspirada no romance homônimo de Jorge Amado. Destaco alguns aspectos da relação entre a ambientação no romance e na música, tomando como ferramenta de análise a identificação de tópicas. Partindo das categorias de relações transtextuais de Gérard Genette (1982, 1987) e de sua adaptação à análise musical por Paulo Ferreira de Castro (2015), abordo o uso do padrão rítmico da habanera como elemento estruturador da partitura e, mais especificamente, do motivo Prends garde à toi! entoado pelo coro na Habanera da ópera Carmen, de Georges Bizet, destacando o paralelo entre as características de sensualidade e liberdade associadas às duas personagens. Acrescentando a ingenuidade e a espontaneidade infantil de Gabriela, associo estas características ao que identifico como tópicas circenses e pastorais, estas últimas também observadas na análise literária de José Paulo Paes (2012) e relacionadas por este autor aos conceitos de “bom selvagem” e “criança-juiz”. Tomando como base as análises de Carmen por Susan McClary (2002) e de Gabriela na nota de encarte de João de Freitas Branco (1967), discuto a ideia de “morte necessária” da mulher que foge às expectativas morais e sociais e sua subversão por Amado e Lopes-Graça, esta realizada musicalmente a partir do recurso de anticlímax. Aponto brevemente, por fim, a questão da presença e a pertinência do exotismo na abordagem musical de Gabriela, a partir de sua associação ao erotismo e do uso do tresillo.

Cave carmen: The Use of Habanera in the Overture Gabriela, Cravo e Canela by Fernando Lopes-Graça

In this paper, I aim to present an analysis of the symphonic overture Gabriela, Cravo e Canela by Portuguese composer Fernando Lopes-Graça (1906-1994), based on the homonymous novel by Brazilian author Jorge Amado. First, I briefly point out a few aspects of the relationship between the novel’s setting and the music, using topic identification as an analytical tool. Starting with Gérard Genette’s (1982,1987) categories of transtextual relations and their adaptation to musical analysis by Paulo Ferreira de Castro (2015), I approach the use of the habanera rhythmic pattern as a structuring element of the score and, more specifically, of the motif Prends garde à toi! sung by the chorus in the aria Habanera from the opera Carmen by Georges Bizet, highlighting the parallel between the characteristics of sensuality and liberty associated with both characters. Adding the naivety and childish spontaneity of Gabriela, I relate those characteristics to what I identify as circus and pastoral topics. The latter are also present in José Paulo Paes’ literary analysis (2012) and associated with the concepts of “noble savage” and “child-become-judge”. Based on the analyses of Carmen by Susan McClary (2002) and of Gabriela in the LP booklet by João de Freitas Branco (1967), I discuss the idea of “necessary death” of the woman that does not correspond to social and moral expectations and its subversion by Amado and Lopes-Graça, the latter musically constructed using anticlimax. Finally, I briefly point out the question of exoticism in Lopes-Graça’s musical approach to Gabriela, considering its relation to eroticism and the use of tresillo.

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