Artigo em periódico

Fonte: OPUS, ___(edição)___, 2017

Ambiguidade métrica no Presto da Sonata para violino solo BWV 1001 de J. S. Bach: apontamentos para uma performance historicamente informada

Luiz Henrique Fiaminghi, Ricardo Müller

Resumo

A tradição interpretativa do séc. XIX consagrou ao Presto da Sonata I a violino solo senza basso, BWV 1001, de Bach, uma concepção de moto perpetuo que enfatiza a virtuosidade, a igualdade e a velocidade da performance, tendo como parâmetro as peças idiomáticas violinísticas de bravura, como moto perpetuo de Paganini. Esta concepção afeta diretamente a estrutura métrica da peça e o sentido rítmico a ela associada. Apesar de a fórmula de compasso indicar claramente uma métrica ternária (3/8), a tradição interpretativa herdada do séc. XIX concebe este movimento prioritariamente em uma métrica binária (6/16) em uma interminável sequência de semicolcheias. Exceções à métrica binária ocorrem quando as ligaduras originalmente marcadas duas a duas são respeitadas, o que consequentemente gera na narrativa rítmica um sentido polimétrico exógeno ao ideal estético do séc. XVIII. Além disso, o senso de movimento contínuo e igualdade rítmica presentes em um moto perpetuo do séc. XIX nega as preceptivas de um discurso retoricamente regrado que prioriza contrastes produzidos pela articulação de vozes em textura polifônica implícita, oculta na escrita das sequências de semicolcheias. Joel Lester (1999), por sua vez, defende que não há neste movimento preponderância métrica entre binário e ternário, e que qualquer opção de interpretação tomada é incapaz de impor-se à outra. Divergindo desta prerrogativa, acreditamos que, ao se superar uma análise estruturalista e adentrar-se em questões hermenêuticas (o mundo do texto) e fenomenológicas (dança/gesto e tradições rítmico/interpretativas), pode-se trazer nova luz a este ícone do repertório violinístico para construção de uma performance historicamente informada ao violino e arco modernos.

Metric Ambiguity in the Presto of Sonata no. I for Violin Solo, BWV 1001 by J. S. Bach: Notes for a Historically Informed Performance

The nineteenth-century performance traditions of Bach’s solo violin works accorded the Presto of Sonata I for Violin Solo, BWV 1001 a moto perpetuo quality that emphasizes virtuosity, evenness and velocity, comparable to the idiomatic bravura violin pieces like Paganini’s famous moto perpetuo. Strongly fixed in the performance traditions that emulated violin virtuosos, this interpretation directly affects the metric structure and the rhythmic sense associated with the piece. Although the time signature clearly indicates a ternary meter (3/8), the moto perpetuo performance tradition inherited from the nineteenth century characterizes it primarily as a binary movement (6/16) through endless sequences of sixteenth notes. Exceptions to the binary meter occur when the originally indicated two-note slurs are respected, which, consequently, generate a polymetric feeling to a rhythmic narrative that is exogenous to the aesthetic ideal of the Baroque era. Moreover, the sense of continuous movement and rhythmic evenness present in a nineteenth-century moto perpetuo denies the precepts of rhetorical discourse that prioritizes contrasts produced by the articulation of implicit polyphonic texture hidden in the writing of the sixteenth-note sequences. Joel Lester (1999), on the other hand, argues that there is no metrical preponderance between the binary and ternary meters in this movement, and that any interpretative choice taken is incapable of imposing itself on the other. Diverging from this prerogative, we believe that by going beyond a structuralist analysis and entering into issues of hermeneutics (the world of text) and phenomenology (dance/gesture and rhythmic/interpretive traditions), we can shed new light on this icon of the violin repertoire to build a historically-informed performance (HIP) on the modern violin and bow.

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