Artigo em periódico

Fonte: Música e Cultura, ___(edição)___, 2017

“Rei do gado zebu, hipócrita velha peste – e tome polca!” – música popular urbana, latino-americanismo e conflitos sobre modernização em Mato Grosso do Sul

Alvaro Neder

Resumo

Este artigo resume o livro “Enquanto este novo trem atravessa o Litoral Central”: Música popular urbana, latino-americanismo e conflitos sobre modernização em Mato Grosso do Sul (NEDER, 2014), que discute as relações entre a música popular urbana e a sociedade de Mato Grosso do Sul, envolvendo o impacto da globalização, as trocas culturais com os países vizinhos e seus reflexos sobre as políticas de segurança nacional implementadas pelos governos federais desde Getúlio Vargas. A criação de Mato Grosso do Sul durante a ditadura militar em 1977 é compreendida como decorrência de tais políticas, visando ao desenvolvimento capitalista e ao fortalecimento da hegemonia dos pecuaristas, dos grandes centros nacionais e dos EUA na região, como forma de prevenir supostas ameaças de “terrorismo” dos países vizinhos. Ao contrário, a nova canção urbana que surge aí na década de 1960 é profundamente influenciada por músicas e culturas originárias da Bacia da Prata, que é referida pelos platinos como um litoral interno, sendo, então, denominada, aqui, de Música do Litoral Central, ou MLC. Entre estas influências, figuram a polca paraguaia e o chamamé argentino, além de músicas bolivianas. Portanto, ao confrontar os interesses geopolíticos e econômicos locais, nacionais e estadunidenses, propondo, em oposição, uma integração latino-americana, a MLC se constitui em um problema. Tal problema é articulado, no livro, com os conflitos entre pecuaristas e setores urbanos, visando mapear propostas divergentes de modernização. Constatou-se que a MLC pautava-se, desde sua concepção, por uma preocupação em desrecalcar as vozes silenciadas pelas elites agrárias em sua busca de modernização capitalista e confrontar as violentas contradições da região – o rural e o urbano, o arcaico e o moderno, a América Platina e os centros dominantes brasileiros, o local e o global. O diálogo que a MLC estabelece entre músicas da América Platina, do interior brasileiro e o rock colide com as teses do Estado nacional e do regionalismo, simultaneamente inscrevendo uma diferença no mundo globalizado. Identificando-se com as múltiplas posições oferecidas pela MLC, diferentes atores sociais – destacada aqui Lenilde Ramos, na condição de importante compositora da MLC, mulher, negra e de família operária – puderam contestar as ideologias dominantes e provocar fissuras na sua hegemonia. Em vista disso, a Música do Litoral Central merece ser estudada, também, enquanto busca de direções que orientassem um projeto de modernização includente, pensado a partir de uma posição periférica no interior da América Platina.

“Rei do gado zebu, hipócrita velha peste – e tome polca!” – urban popular music, Latin-Americanism and conflicts over modernization in Mato Grosso do Sul state

this essay is a summarized version of the book “Enquanto este novo trem atravessa o Litoral Central”: Música popular urbana, latino-americanismo e conflitos sobre modernização em Mato Grosso do Sul (NEDER, 2014), which discusses the relationships between the State of Mato Grosso do Sul’s urban popular music and society, involving the impact of globalization, the cultural exchanges between neighboring countries and its reflexes upon national security policies implemented by Brazilian federal governments since Getúlio Vargas. The creation of Mato Grosso do Sul State during the military dictatorship in 1977 is understood as a consequence of such policies, aiming at the development of capitalism, and at the strengthening of local ranchers, large national groups and USA’s hegemony in that region, so as to prevent alleged threats coming from the neighboring countries. Conversely, the new urban song that emerges there in the decade of 1960 is profoundly influenced by musics and cultures originated in the Basin of Rio da Prata, which is referred by platinos as an inner “sea” (litoral), thus being named, here, Música do Litoral Central (Music from the Inner Sea), or MLC for short. Among such influences, the Paraguayan polka and the Argentinean chamamé, along with Bolivian musics, can be named. Thus, as MLC confronts local, national and US’ geopolitical and economic interests, proposing, instead, a Latin-American integration, this musical movement constitutes itself as a problem. I articulated such problem with the conflicts between ranchers and urban sectors, so as to map divergent modernization projects. I found, then, that since its inception MLC sought to derepress the voices silenced by the agrarian élites comitted to capitalist modernization and to confront the violent contradictions of the region – rural/urban, archaic/modern, América Platina/Brazilian dominant centers, local/global oppositions. The dialogue that MLC stablishes between musics from América Platina, Brazilian hinterlands and rock’n’roll clashes against the postulates of National State and regionalism, simultaneously inscribing a difference in the globalized world. Identifying with the multiple subjective positions offered by MLC, different social actors – featuring Lenilde Ramos, as an important Black woman composer of MLC of working-class descent – challenged dominant ideologies and fractured its hegemony. In conclusion, the Música do Litoral Central deserves to be studied, also, as a search for directions that could guide a project of includent modernization, created from a peripheric position in América Platina’s interior.

Seguir para site externo

Seu navegador será reencaminhado para a fonte do documento, porque o Amplificar não mantem cópias das referências. Caso o texto não seja carregado, por favor me notifique que ele está fora do ar e consulte sua disponibilidade no site oficial da fonte.